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O cais de lápis-lazúli


Viridiana

Os golfinhos sonham acordados, sonhos translúcidos, mistérios verde hortelà.


Edredão

Durmo sobre a pele dourada duma serpente.



Myopia

A lente azul dança sobre uma lágrima.


A tecedora celeste

Fios de ouro, fusos de marfim.


Primavera fria

Comeriamos os frutos do país, coletados quando ainda os cobresse a geada.


Halloween

Como abóboras liliputianas, açafroadas amoras dos pântanos.


Gospel Oak

Um jogo de chá azul e ouro, como lápis-lazúli noite.


Matinas

A neblina apareceu de repente, deslizando-se no ar qual se fosse fumo branco.


Chão de estrelas

Lá embaixo, minúsculas, as ondas, mica cintilando numa parede de mar.


Moon Milk

A lua é um coco verde.


Gorgona

No dorso da sua mão, um pequeno dragão azul.


Barcarola

Um paseio invernal pelos canais de Bruges. As cabeças vão quebrando o gelo sob os pontes.


Recomendações para Horai

Levar sempre um dedal no bolso por se houvesse que dar de beber a um pássaro.


Luminosidade

Doce fulgor das noites após a neve.


Meravelles

Uma ametista branca que semelha um glaciar.


Noturnal

Eclipse: o sol como lua.


Antoaneta

As cerejas são as maçás das fadas, as diminutas delícias dos seus pecados etéreos.


Retratos do mundo flutuante

Ratos no alto das espigas e uma gata de cinza de lua.


Selk'nam

Serão as quatro cordilheiras do infinito.


Jigsaw

Arlecchino encrespado, vertiginosa delícia.


O cais de lápis-lazúli

Esfera azul e diáfana, mansão dos bem-aventurados.


Llanddwyn

Tudo é estranhamente sábado ou domingo. Merenda de passarinhos, aniversário secreto.


Pangur Bán

Ontem conheci um gato de barriga dourada.


Sala dell'Infinito

Capela de neve, aquário fantástico, jardim de sal sob as estrelas.


Mirante

Esses golfinhos que giram no céu...

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Montevidéu, setembro 2022.

Imagem: relevos da porta de Istar no Museu Arqueológico de Istanbul.


Versiones originales

English Versions

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Caperucita en fronterizo



Que ela saiu
foi lá na casa da avó
y veiu y...
y... taba sacando florsinha
y u lobo veiu
y preguntó si ela non quiría... corré a carrera
y ela decí que sí
preguntó por qué camino ela ía
y u lobo dice que era aquele
y ele por este
llegó na casa da avó
y batió la porta
y mandó que entrase y...
y comió a abuelita
y depós a Caperucita llegó
y preguntó "que oreia tan grande esa, abuela"
y después "qué oio tan grande, abuela"
y ela respondeu "Eu so ansí" y...
y a Caperucita fue
y alcanzó canasto con cosa que a mae dela tinha mandado y...
y ele depoi comeu a Caperucita
vinierun lenador
y cortaron a barriga du lobo y...
y sacó a Caperucita y abuela y...
lleó a barriga dele de pedra
y ele caiu dentro duma cachimba.
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Relato de una niña de Artigas (cerca de la frontera de Uruguay con Brasil) en el libro de A. Elizaincín Dialectos en contacto. Español y portugués en España y América (1992).

A língua do Diabo




«Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os cavoucos do mundo.

»Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? mas há alucinações coletivas.

»O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa.

Fernando Pessoa, Livro do desassossego de Bernardo Soares.

Foto: Villach.